Velho amor novo


Caminhando hoje, costumeiramente apressado como alguém sempre atrasado, avistei à minha frente um casal, daqueles cujo tempo vivido ensinou que os passos devem ser dados cada vez com mais cuidado, pois qualquer irregularidade na calçada, qualquer pisada em falso, pode ser uma sentença de semanas ou meses preso a uma cama, se recuperando da fratura. Imediata e instintivamente, desacelerei. Ele a abraçava nos ombros e ela, um tanto mais baixa, o abraçava na cintura. Caminhavam numa coreografia perfeita, ensaiada provavelmente desde o início do namoro. Era um balançar tão sincronizado que, para os mais atentos [e curiosos], era como se a cada passo, simultânea e sutilmente, davam apoio ao outro para que avançasse a próxima perna com mais segurança. Só os vi de costas, mas pude sentir o sorriso e a felicidade em cada um, naquele simples caminhar, um movimento dois em um. Tive certeza que a dificuldade, outrora inexistente, não importava. Importava que continuavam se apoiando, se completando.
Quase passei do meu destino, absorto naquele contemplar, sentindo como se estivesse invadindo a privacidade deles. Não sei de onde vinham, nem de onde vieram, mas pensei: tá aí um lugar que quero sempre estar.


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